quarta-feira, 7 de abril de 2010

DIÁLOGO CASUAL

( CONTO )
- Bom dia, moço, pode me dizer onde fica a igreja do Horto? Mário observou dos pés à cabeça, com seu olhar treinado  e atento, a desconhecida que acabara de lhe fazer a pergunta. Ela deveria ter uns vinte e dois anos. Calçava sandálias de couro cru, semelhantes às de São Francisco de Assis. Tinha os cabelos lisos e negros, o rosto comprido, a boca pequena e lábios carnudos. Seus olhos eram grandes e negros como o pecado. Usava uma saia de cambraia que ia até os joelhos e uma blusa “gola polo” que não deixava à mostra a barriga, como ocorre com a maioria das jovens de sua idade.Não usava nenhum tipo de maquiagem. Essa moça se assemelha   ligeiramente a Iracema – a virgem dos lábios de mel – personagem de um dos romances  indianistas de José de Alencar, pensou Mário.
Enquanto seus pensamentos vagavam pelo túnel do tempo foi trazido de volta à realidade por meio de um toque sutil e suave no seu ombro.

- E aí, sabe onde fica a igreja?

- Ah, sim, desculpe.Siga por aquela rua do restaurante dos romeiros-sinalizou com o dedo indicador.No terceiro quarteirão, dobre à esquerda.
- Obrigada, respondeu docemente a jovem.

Mário chegara à praça São Pedro  às sete horas.Havia ido observar a chegada de romeiros que aportavam em Juazeiro do Norte em caminhões pau-de-arara para “pagar suas promessas ao Padim Ciço " Era pesquisador e estava ali para realizar uma pesquisa sobre a religiosidade em Juazeiro, especialmente a dos romeiros.

Naquela manhã, naquele curto espaço de tempo, já pusera os olhos em muitos romeiros e romeiras , todavia a jovem que lhe pedira a informação  chamou-lhe a atenção pela doçura, polidez da fala e por sua beleza física quase exótica. Não demonstrava ser uma romeira “alienada”, daquelas cuja “fé” ultrapassa os limites da razão e do bom senso. Era também extremamente simples, por isso gostava de ambientes e pessoas simples, tal qual a jovem romeira. Vestia calça jeans, dessas mais baratas e camisa de malha.Gostava de usar tênis modelo  "bamba". Aparentava ter uns trinta anos. Usava cabelos à moda Rock Hudson, bigode fino ao estilo Zorro e óculos  redondos ,parecidos com os de John Lennon. Quem o conhecia o caracterizava como observador, introspectivo, de poucas palavras,além de ser dado a leituras.

Como todo ser humano carregava no coração uma tristeza solitária e  alternava momentos de melancolia e alegria. Contudo armazenava no coração da alma um dos bens mais precioso da raça humana: a fé.E gostava de dizer que sua fé tinha direção certa:Cristo.  Enquanto prosseguia em suas reflexões e observações,  avista,caminhando entre os romeiros,uma figura já conhecida vindo em sua direção.

- Olá, ainda  por aqui? Disse a moça ,demonstrando satisfação em revê-lo.

- Ah, sim. Preciso estar por aqui quase o dia todo,observando.(Ele se referia aos romeiros-objeto de sua pesquisa)


- Então, encontrou a igreja?

- Sim, encontrei. É que a missa  só começa às nove. Cheguei na "na metade" da  missa das oito. Retornei aqui pra conversar com você enquanto a próxima celebração não começa.

- Mas por que comigo? Não sou um estranho?

- Mas as outras pessoas também são. É que você foi gentil comigo da primeira vez.

- Tudo bem, meu nome é Mário e o seu?

- Joana, mas pode me chamar de Jô. Disse ela, com um sorriso nos lábios e um brilho no olhar.

Mário começou a sentir-se mais à vontade e perguntou:

- Jô, de antemão, sei que és romeira, mas de onde vens? O que fazes na vida?

- Sou de Arapiraca. Mário tomou um espanto. De Arapiraca?Aquela cidadezinha de Alagoas?

- Sim, por que se espantou?

- Arapiraca não é o lugar onde os três padres da cidade foram afastados por suspeita de pedofilia?

- Sim, Mário, mas os desvios de conduta de alguns padres não comprometem minha fé. Nos sermões da missa sempre ouço os padres dizerem que a igreja é “santa e pecadora”. Em parte concordo com eles. A igreja é o reflexo do ser humano e por isso não está isenta de errar, falhar, provocar dores e feridas. No entanto, penso que isto não dá o direito de a igreja “fechar os olhos” às denúncias de pedofilia no mundo todo. Ela deveria ser a primeira a se interessar pela apuração de tais denúncias e se comprovadas, as pessoas envolvidas deveriam ser excluídas do seio da igreja e responder penalmente por seus crimes e, se necessário,serem encaminhadas para tratamento...
 O rapaz surpreendeu-se com a coerência da resposta da jovem romeira e fez-lhe outra pergunta:

- Você estuda?

- Sim, faço Filosofia na Estadual, estou no último semestre. Por quê? Uma pessoa “culta” não pode ser romeira? -Pode,claro que pode,suspirou Mário.

Não foi por ser romeira que perguntei, mas por sua resposta anterior, completou o jovem pesquisador.

Sou filha de pequenos produtores de cana-de-açúcar– continuou a moça -e o fato de eu cursar Filosofia também não  gera em mim nenhum conflito nem “enfraquece” minha fé. Respeito todas as correntes de pensamento da Filosofia: pré-socráticos, socráticos, existencialistas ateus ou não, dentre outras. Entretanto tenho minha maneira pessoal de ver e analisar o mundo. As concepções de cada pensador representam,geralmente, a verdade de cada um num determinado contexto histórico.Eles não são os donos da verdade.
Mário ouvia atento as explicações da moça e pensou: - ela não é a Língua Portuguesa, mas é “culta e bela”. De sobressalto a jovem olhou para o relógio. Faltavam dez minutos para o início da missa das nove.   Saiu apressadamente, nem se despediu direito. Disse apenas: - tchau, tchau. Mário levantou-se e saiu correndo atrás da moça:

- Ei, espera ai!

- Estou atrasada, me espera lá no banco da praça, quando terminar a missa, passo por lá.

- O jovem abriu  um  sorriso. Ainda bem, pensou .

Voltou então para o banco da praça e continuou  fazendo suas observações e anotações, além de aguardar o retorno de Jô. Dez e meia, onze, doze. Nada de Jô. Ela não retornou, conforme prometera. Seu coração e sua razão começaram a jogar em ritmos diferentes. Um homem experiente como ele, pesquisador- não poderia permitir que seu coração sobrepujasse sua razão,racionalizou. Mesmo assim uma tristeza solitária começou a pavimentar sua alma. Há pessoas que aparecem somente uma vez na história de nossa vida. A jovem romeira seria uma delas? Indagou-se. Sentiu-se tolo por não ter-lhe perguntado seu endereço, seu número de telefone. A voz da consciência sussurrou-lhe aos ouvidos, dizendo-lhe:- vá procurá-la. Ele foi à igreja,porém  estava quase vazia. A missa houvera terminado há mais de duas horas. Viu apenas algumas senhoras com o terço à mão e com os olhos fixos nas" imagens" do altar da igreja de santa Luzia. “Circulou pela  parte externa da  igreja.Percorreu  praças, a  Rodoviária, perguntou aos vendedores de "santo”. nada... Ninguém havia vista essa tal moça.

Eram já quase quatorze horas. Começou a sentir fome. Só então  lembrou-se de que se esquecera de almoçar. Dirigiu-se a um restaurante muito frenquentado pelos romeiros,localizado em frente à pracinha. De lá ,avistava o banquinho onde conversara com a jovem desconhecida. Que saudade dela. Perdera até o ânimo de prosseguir sua pesquisa.

Estava ali em Juazeiro por causa de um trabalho não por um acaso que a vida lhe proporcionara,racionalizou novamente. Todavia  Jô estava eternizada em sua lembrança, gostaria de reencontrá-la muito,para falar-lhe de seus sonhos. Como José do Egito, Mário era também  um sonhador. Passara a vida toda sonhando com uma pessoa semelhante a Jô. Porém, mais uma vez seu sonho fora adiado,só Deus sabe até quando.Após o almoço, voltou à pracinha  para continuar suas observações. Romeiros vindos de todos os estados do Nordeste desciam,cansados, dos caminhões pau-de-arara, mas ainda com disposição para entoar hinos.

Enquanto continuava observando a passagem  dos romeiros, uma voz grave feminina  perguntou-lhe:

- O senhor sabe onde fica a igreja do Horto?

- Não, não sei – respondeu Mário sem olhar para a pessoa que lhe fizera a pergunta. Pelo tom de voz concluiu que  não se tratava de Joana. Apesar da ingratidão da moça(ela prometeu retornar e não retornou),  ela seria guardada como um sonho bom e ele continuaria sonhando seus sonhos.Tinha fé  suficiente para alimentá-los.





Marcos Antonio Vasco Rodrigues,é professor de Língua Portuguesa. Cristão. Escreve contos, artigos e crônicas. Texto publicado em 07/04/2010 Esta obra está registrada e licenciada. Você pode copiá-la,distribuí-la,exibi-la,executá-la desde que seja citado o autor original.Não é permitido fazer uso comercial desta obra...

6 comentários:

Eliene disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eliene disse...

A fé remove montanhas...
Lindo, sem palavras...
Leio os seus textos e me sinto como se tivesse vivendo a situação...
Acho isso ótimo, cada texto é uma chance de me tornar uma pessoa melhor...
Beijos no ♥

kira Poesias disse...

fatos em nossas vidas...

O texto retrata a realidade de muitos que sonham e quando pensam que encontraram algo que os completaria de vez, se vêem sem rumo por perderem o alvo do seu desejo.

Texto muito bom e bem escrito, como sempre!

Parabéns e abraços.

rafael disse...

Ola!
O texto também nos leva a refletir sobre o real objeto da nossa fé:que não está em instituições ou em meros seros humanos,mas somente naquilo que é Divino.

luciano disse...

Parabens meu qquerido irmão q Deus continue dando-lhe sabedoria para escrever lindos contos como esse, Deus lhe abençoe !!!

GG disse...

Muito envolvente o texto, li todo ele com muito prazer.
Parabéns
beijo