quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O coração solitário de Jesus


José, pai adotivo de Jesus, quase perdeu a respiração e ficou com o coração partido quando sua imaculada e amada futura esposa lhe apareceu grávida. Meu Deus, como ela pôde fazer isto? “Como teve coragem de me trair, não dizia que me amava”?”Quem será o amante dela?” Estas e outras perguntas, com certeza, perturbaram-lhe a mente. Seu coração se acalmou quando recebeu, por meio de sonhos, a revelação de que o filho que Maria esperava era obra do “Espírito Santo”. Mesmo aceitando a revelação, provavelmente o coração do jovem José, a partir daquela descoberta não seria mais o mesmo. É normal que tenha desejado muitas vezes ser o pai biológico de Jesus. Tais sentimentos devem ter provocado indiferença e frieza no relacionamento entre ele e Jesus. É bem provável que Jesus não tenha recebido o mesmo carinho e atenção que seus outros meio-irmãos,filhos de José com Maria,recebiam.Isto talvez o deixasse triste, solitário e “magoado”. Um fato ocorrido durante a festa da Páscoa merece destaque. Não é possível deduzir se tal atitude foi motivada pela suposta frieza e indiferença de José ou se pela provável falta de compreensão e apoio de sus pais ao seu Ministério. Após a festa, Jesus “sumiu” por três dias sem avisar aos pais. Ele tinha doze anos. Segundo a Bíblia, quando foi encontrado, estava na sinagoga entre os doutores da lei, interrogando-os.Por que não avisou a seus pais ?Tivera algum desencanto com eles no dia da festa? Estava chateado com eles? Não compreendiam sua missão? Não lhe deram a atenção devida? Ao ser encontrado por sua mãe,ela lhe disse:-“Eis que teu pai e eu te procurávamos ansiosos”. O garoto Jesus respondeu – “Não sabeis que estou cuidado das coisas de meu Pai?” Nesta afirmação Jesus parece querer indicar que seus pais sabiam de sua missão, mas demonstraram maior preocupação com a sua ausência do que com sua Missão. Talvez esperasse ouvir de sua mãe – “filho, como podemos ajudar em tua Missão?” A resposta dura demonstrou que ele ficou desapontado com sua mãe. Quando adulto, demonstrou a mesma dureza ao afirmar “- Quem é minha mãe?” “Quem é meu irmão?” “É aquele que faz a vontade de meu pai” – completou. Na idade adulta sua solidão e dificuldade foram ampliadas pelo preconceito sócio-econômico e cultural. O mestre era filho de uma família muito humilde e sem prestígio social. Era filho adotivo de um carpinteiro com o qual trabalhava. Nasceu em Belém, mas foi criado em Nazaré, uma cidade miserável àquela época, a ponto de um religioso perguntar -“Pode vir alguma coisa boa de Nazaré? Também não era culto como Paulo, não era escriba. Eis uma das dificuldades para alcançar a elite religiosa, tivera a primeira experiência aos doze anos, quando sentiu a dureza e o materialismo de seus corações. Outro fator gerador de isolamento social e interno (não de Deus) era o fato de sua pregação ser frontalmente oposta aos valores da época. Como hoje, valorizava-se o prestígio social, a obtenção de bens materiais. Jesus pregava correção, conversão, justiça, santidade, salvação da alma, humildade, simplicidade... ou seja, sua pregação era oposta à da elite religiosa. Não foi por caso que seus principais inimigos eram os religiosos. Até mesmo João Batista, seu precursor e primo o decepcionou. Quando estava na prisão João mandou seus discípulos perguntarem a Jesus –“ és tu aquele que deveria vir, ou devemos esperar outro?”Jesus indignado com a pergunta, pois João há houvera recebido a revelação no Jordão de que Jesus era Cristo, respondeu, “Que fostes ver no deserto? Uma cana agitada pelo vento?” ‘referindo-se a João”. “Em um de seus momentos de tanta incompreensão e solidão Jesus falou –” “As raposas têm covis e as aves do céu têm ninhos, mas o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” Desde o nascimento, infância, juventude e idade adulta, Jesus trilhou um caminho de solidão. Portanto, ao contrário do que muitos imaginam, os evangelhos parecem indicar que Jesus foi um homem extremamente solitário(sentimento que parece ter sido plantado na infância e adolescência do Mestre) e incompreendido pelos seus conterrâneos e irmãos de fé. Demonstrava ser um homem sisudo e fortemente focado no propósito de realizar a vontade de Deus, para isto sacrificou sangue, suor e lágrimas

Marcos Antonio Vasco Rodrigues

Esta obra está registrada e licenciada. Você pode copiá-la, distribuí-la, exibi-la, executá-la desde que seja citado o autor original. Não é permitido fazer uso comercial desta obra.Publicado em: 14/10/09

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

EM BUSCA DO PAI

Saiu de casa atrasado. Precisou correr como um cavalo puro-sangue para vencer os três quilômetros de estrada que separavam sua casa da rodagem por onde passaria o único transporte de Monte Santo. Logo que chegou à estrada carroçal ouviu a buzina langorosa do caminhão Chevrolet 1966 anunciando a chegada. O velho caminhão “pau-de-arara”, apontou a “fuça” na curva do “S” se aprumando desajeitadamente para tornar a pegar o retão final da estrada esburacada de Monte Santo. Ao avistar os faróis redondos do caminhão, Jorge ajeitou a surrada mochila sobre os ombros. Na sacola levava alguns pertences de uso individual, pretendia passar alguns dias em Caninindé ,se tudo desse certo. O caminhão parou no acostamento próximo à árvore centenária onde Jorge o aguardava. O Chevrolet 66 freou preguiçosamente, sendo coberto por uma nuvem de poeira e exalando um cheiro forte de gasolina queimada. Na boleia, como sempre, vinham as pessoas idosas e mulheres com crianças no colo. Estava cheinha. Seu Cordeiro, um senhor de mais ou menos sessenta e cinco anos, mal podia passar a marcha do simpático caminhão, mas já se acostumara a todo àquele aperto e dificuldades. Há quarenta anos realizava o mesmo trajeto. Fazia três horários por dia. Jorge pôs o pé esquerdo sobre o pneu traseiro e com as duas mãos apoiou-se na grade e pulou pra dentro da carroceria do caminhão, que já vinha lotada. Ali ia de tudo – sacos de mamona, algodão, milho, galinhas, porcos... Embaixo de um dos bancos ,vinha um papagaio preso em uma gaiola. Tinha olhar triste e cabisbaixo. – melancólica viagem a sua, parecia saber que iria também ser vendido na feira com as outras mercadorias. As galinhas de vez em quando se espantavam, por causa dos solavancos do caminhão “pau-de-arara”. Acocha daqui, acocha dali, Jorge conseguiu,com muito esforço, um lugar espremido para sentar-se. Baixou a cabeça e colocou a sacola sobre as pernas. Seu pensamento começou a viajar meio mundo. As lembranças de sempre vieram incomodá-lo. Fora criado desde criança com seus avôs maternos. Convivera pouco com sua mãe e seu maior sonho era saber de quem era filho, quem era seu pai. A imagem desconhecida do pai estava gravada na parede de seu coração. Será que ele sabe que existo? Ainda é vivo? Quantos anos terá? O que faz? Após vinte anos sendo inquietado por estas e outras perguntas, finalmente teria uma oportunidade de encontrá-lo. O Chevrolet 1966, parou em frente ao imponente Jequitibá, na pracinha da matriz de Canindé, que àquela hora da manhã estava deserta. Eram oito horas. Sentou-se em um dos bancos da praça. Estava triste e alegre ao mesmo tempo. Levantou a vista e viu um homem aparentando cinquenta anos, bigode à moda Floriano Peixoto, chapéu de massa virado pro lado direito do rosto, expressão sisuda e olhar perdido. Ele vinha da feira caminhando em sua direção, montado em um cavalo amarelo, calçando botas sete léguas. Parecia mesmo um vaqueiro, ou um fazendeiro, pelo modo como se vestia. O homem desceu do cavalo e colocou a mão direita sobre o ombro de Jorge e falou, sem rodeios: - Sinto muito, Jorge, não sou seu pai, aqui está o resultado do exame de paternidade. Bem que eu gostaria, você é um bom moço. Jorge ficou calado. Não tinha palavras para falar. Uma dor infinda transpassou-lhe a alma. Aquelas palavras doeram como espinho na carne. Após alguns segundos respirou fundo e respondeu:
- Tudo bem, seu Bartolomeu, agradeço ao senhor pela boa vontade que demonstrou em fazer o exame de paternidade. Vou continuar minha busca, quero saber quem é meu pai.
Jorge investira parte do seu tempo investigando a juventude de sua mãe. Descobriu que ela era apaixonada por paixões. Soube que na época em que ficara grávida tivera duas paixões: Bartolomeu e Raimundo. Duas paixões num só ano. Bartolomeu continuava na cidade, e Raimundo, outro amante de sua mãe, por onde andava? Ainda estava vivo? Iria investigar, quem sabe fosse seu pai? Reconstruiria suas emoções, suas forças, suas esperanças. Continuaria sua caçada. Levantou-se do banquinho da pracinha da matriz, despediu-se de Bartolomeu, colocou sua mochila nos ombros e saiu caminhando em direção à parada por onde o Chevrolet “pau-de-arara” 1966, passaria e o levaria de volta a Monte Santo. Uma lágrima quente rolou do rosto de sua alma. Naquele momento sentiu-se pior que Ismael abandonado no deserto, expulso por Sara, mulher de Abraão. “Ainda que teu pai e tua mãe te desamparem, eu não te desampararei” lembrou em meio à lotação do “pau-de-arara”. Sangue novo correu-lhe nas veias da alma, sentiu-se renovado para continuar sua busca...
Marcos Antonio Vasco Rodrigues
Esta obra está registrada e licenciada. Você pode copiá-la, distribuí-la, exibi-la, executá-la desde que seja citado o autor original. Não é permitido fazer uso comercial desta obra.Publicado em: 30/09/09

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

QUANTO AMOR... E... DOR...

O barulho ensurdecedor da chegada do trem das sete rasgou o véu do silêncio da pacata cidade de Miraíma no agreste nordestino. À medida que o trem se aproximava, o coração da alma de João parecia querer pular fora. No vagão viria sua inesquecível amada. Passar seis meses ausentes dela era muito doloroso. Ficava faltando-lhe um pedaço.
Quando o vagão parou, João já estava em pé na plataforma onde o trem faria o desembarque de passageiros. As pessoas desciam apressadas das várias saídas do vagão. Os olhos de João estavam atentos a todas as saídas, afinal ele não sabia por qual porta de desembarque ela desceria. Seus olhos não encontraram sua amada.
- Meu Deus, o que houve? Ela não veio. O que teria acontecido? Imediatamente pegou o celular e ligou pra ela. Mas só ouvia a gravação cansativa que dizia “este telefone no momento não está recebendo ligações”, tentou várias vezes. A mesma resposta. Um misto de desencanto e frustração deixou-o extremamente abatido. Vários pensamentos conflituosos vieram-lhe à mente da alma – teria desistido dele? -- Não, não posso crer, pensou. Estaria doente? Por que não ligou avisando que não viria no trem das sete? A paixão de João encontrou justificativas para todos os possíveis deslizes da amada. E decidiu – iria esperar pelo trem das nove. Respirou fundo e sentou-se solitariamente no banco tosco da estação. Levantou a cabeça para o alto e viu várias estrelas piscando silenciosamente no céu, o brilho delas não lhe trazia alegria como outrora. João procurava distrair-se observando os poucos transeuntes apressados que se dirigiam aos guichês em busca de informações.
Até passou uma moça interessante fisicamente, mas aos olhos de João, nenhuma beleza se comparava ao encanto e singeleza de sua amada. Os seis meses de ausência de Eva não foram suficientes para atenuar seu amor, ou paixão? O certo é que a figura alta e esguia de Eva não lhe saía da lembrança. O “cheiro” dela estava impregnado em suas narinas. Que outra mulher teria o odor tão aprazível como o de Eva? Alguma voz se assemelharia à doçura da sua? Não. Para ele, não... sua amada era toda formosa, nela não havia mancha. Ela seria mais ou menos como a noiva descrita no livro “Cantares de Salomão”.
Enquanto viajava na lembrança de Eva, as badaladas do sino da velha estação de Miraíma trouxeram-no de volta à realidade. Olhou o relógio, eram nove horas. O vagão já se aproximava, rasgando agora de maneira mais intensa, o silêncio da noite. Ela vem neste, não é possível, meus Deus. Alegria e incerteza administravam suas emoções naquele momento. Olhou avidamente tentando encontrar a figura da amada, porém não a viu. A última pessoa a desembarcar do trem foi um velhinho curvado pelo peso do tempo, segurando uma bengala e caminhando com dificuldades. Meu Deus, ela não veio. E este é o último trem. Ficou confuso, precisava se organizar emocionalmente. Sentou-se ali mesmo, na plataforma de desembarque. Tinha que administrar sua dor, decidir o que faria, precisava continuar “tocando a vida em frente”. Passou a noite em claro, ali mesmo. Logo às cinco da manhã pegou o primeiro trem e foi à procura de sua amada. Ela havia ido a Recife fazer companhia a uma tia acometida de uma doença terminal. Quando Eva se dirigia à estação para pegar o trem que chegaria às sete, na cidade de Miraima, foi colhida por um veículo, que a jogou distante. O amor de João se despediu da vida ali mesmo, sem se despedir de João. Quando o moço chegou à casa da tia de Eva deparou-se com a amada em um caixão... Já era o velório dela. Ninguém tivera coragem de avisá-lo. Inclinado sobre o caixão da amada, secou todas as lágrimas. A dor era indescritível. `uma frase guardada no baú do coração trouxe-lhe ânimo ´ - “não se turbe o vosso coração...” – “ os meus caminhos não são os vossos caminhos”. Era Jovem. Tinha vinte e cinco anos. Iria tentar viver de novo. Deus o sustentaria.






Marcos Antonio Vasco Rodrigues

Esta obra está registrada e licenciada. Você pode copiá-la, distribuí-la, exibi-la, executá-la desde que seja citado o autor original. Não é permitido fazer uso comercial desta obra.Publicado em: 26/08/09

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A INCOMPREENSÍVEL ESCOLA DO DESERTO

Haveria algo agradável no deserto? A própria origem da palavra é dolorosa, vem do latim “desertus” que significa “abandonar”. É um ambiente absolutamente perigoso. A população de animais é formada por ratos-cangurus, serpentes, escorpiões e uma enorme diversidade de seres vivos que se escondem sob a areia desértica para se protegerem do calor excessivo.Tempestades violentas são frequentes, a vegetação é irregular e insuficiente para oferecer qualquer espécie de abrigo. A própria vegetação já se adaptou à salinidade e à seca do deserto. Falta água, alimento, tudo.
Toda essa paisagem do deserto produz em quem está ali sentimentos indescritíveis de solidão extrema, medo, incerteza, perigo, ansiedade, melancolia... que Pai amoroso teria coragem de enviar seus filhos para treinamento numa escola com estas características? Claro que todos responderiam, - ninguém, não é mesmo? Pois saiba que a principal escola que Deus tem utilizado para treinar seus amados filhos campeões – tem sido a do deserto. Não que Ele quisesse entregar seus amados às feras deliberadamente. De forma indireta,seus filhos recebiam ajuda e apoio. Parece que Deus queria treinar, capacitar, fortalecer emocional e espiritualmente seus guerreiros para enfrentar outros desertos piores. “ Ele falou por meio do profeta Jeremias” ... Os meus caminhos não são os vossos caminhos, nem meus pensamentos são os vossos pensamentos “...
Cito ,por exemplo, o Êxodo comandado pelo campeão Moisés. É absolutamente incompreensível à razão humana, que o Senhor tenha tirado o povo da escravidão no Egito, para levá-lo ao deserto. No Egito o povo era humilhado, cativo, se submetia a trabalhos forçados. Contudo ,tinha pão e água em horários específicos, os riscos que corriam eram bem menores em comparação aos que corria no deserto. Mesmo assim, Deus falando por meio do profeta Ezequiel, disse: “Tirei-os da terra do Egito e os levei ao deserto” pelo contexto bíblico Deus dá a entender que o deserto seria melhor que o Egito.
Analisando o comportamento do mais proeminente campeão de Deus,Jesus, quando esteve no deserto,percebe-se que Ele parece ter se comportado como um cerdo selvagem. “ Quando um cerdo leva um tiro, ele lambe a ferida e procura safar-se, escapar, ir embora. O “pensamento” que lhe vem à mente é a ferida que está fazendo com que ele ande mais devagar”. Ele não pensa na morte... Jesus levou vários “ tiros” no deserto, porém se comportou como um cerdo.
Está escrito: “ E logo o espírito o impeliu para o deserto, onde permaneceu quarenta dias, sendo tentado por satanás. Estava com as feras". Percebe-se que Jesus corria o risco iminente de morrer a qualquer momento ( tentação do diabo, feras, o ambiente letal do deserto...) Mas como um cerdo selvagem, ele não se preocupou com a morte, mas “ em lamber as feridas"e continuar sua caminhada. E conseguiu. Venceu as tentações, as feras, o medo, a fome, a sede, os conflitos. Após quarenta dias de treinamento mortal e rigoroso, saiu da escola do deserto, mais preparado emocional e espiritualmente para enfrentar um outro deserto pior que o aquele que acabara de derrotar - o deserto da incompreensão e da ignorância humana.

Ps: Escrevendo este texto e meditando sobre as dores “ incontidas – contidas” dos campeões de Deus, especialmente de Jesus, meu coração não conseguiu refrear varias lágrimas quentes que abriram caminho no meu rosto. Este texto foi escrito com lágrimas. ´



Marcos Antonio Vasco Rodrigues

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sábado, 15 de agosto de 2009

Saudade não tem fim

São necessários vários relicários para guardar tanta saudade. Desde a nossa mais tenra idade ela se apropria de um dos compartimentos de nossa alma e fixa, ali, sua morada definitiva. Com freqüência, ela desperta e traz de volta momentos magicamente belos e doces, faz nosso peito ficar quente e nosso coração pensativo. Precisamos, de vez em quando, refreá-la com a nossa razão, a fim de que ela não se transforme em tristeza e melancolia. Neste caso, ela já passaria a ser algo nocivo. Segundo a História oficial, muitos negros na época do Brasil - Colonial, trazidos como escravos morriam de saudade, tristeza e melancolia.
Lembro com ternura e saudade da figura angelical da minha primeira namorada. Na época eu tinha dezesseis e estava no auge do sonho e da fantasia. Sinto saudade do silêncio e da inocência dela. Falávamos pouco. Só a companhia e a troca de olhares já eram suficientes. Havia uma empatia produzida pelo ambiente bucólico e pela fantasia do sentimento. Pelas janelas da alma dela eu sentia que sua paixão por mim era maior que a profundidade do oceano. Ficávamos sentados no batente de entrada do velho casarão da casa dela. Eu chegava lá às cinco e meia da tarde e ao nosso dispor um vasto horizonte e o cair da tarde. Minha sensibilidade de adolescente apaixonado conseguia perceber a tristeza do horizonte. Por que ele sempre ficava triste ao entardecer? Estaria prevendo o fim do nosso romance? Parece que sim. Justamente neste clima de encanto e mistério que envolvia nosso sonho, ela teve que ir embora para outra cidadezinha, deixando um rastro de desolação e eterna saudade. E o pior: se despediu de mim por carta. O que teria acontecido? Se a saudade não envelhece, não morre, ao contrário do que se afirma, de onde ela vem? Seria de Deus?
No livro de Genêsis esta escrito “ então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe em seu coração” também está escrito no segundo livro de Samuel “ estendendo pois o anjo a sua mão sobre Jerusalém para a destruir o Senhor se arrependeu daquele mal”
Ora , se Deus manifesta sentimentos de arrependimento, pesar e tristeza, por que não manifestaria, também, sentimentos de saudades? Mas por que Ele a sentiria e por quem?
Todos nós temos histórias sem fim de saudade para serem contadas. Confesso que gostaria de saber as histórias das saudades de Deus. Parece que com Deus também ocorre o mesmo que acontece conosco - Tristeza tem fim, saudade não...


Marcos Antonio Vasco Rodrigues

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quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Sinto muito, mas preciso falar

A suposta origem dos maus sentimentos...

Dissimulação, inveja, sedução, falsidade, materialismo, ciúme, ódio são alguns dos sentimentos danosos que têm, desde sua origem até hoje, provocado a infelicidade e a tragédia da sociedade humana. Na verdade, todos eles estão presentes em maior ou menor intensidade em todo coração. Nenhum tipo de conhecimento, a não ser o teológico, oferece “pistas” para se saber a origem de tais sentimentos do coração.Se analisarmos a História humana desde as sociedades mais primitivas, veremos, claramente, que eles têm prevalecido no coração, nas atitudes e no comportamento das pessoas. Somos superiores aos animais em intelecto e criatividade, porém no quesito expressão de sentimentos somos inferiores à maioria deles, (por exemplo, o cachorro não guarda mágoa). (O avanço tecnológico não contribuiu para produzir relações saudáveis, fraternas, duradouras e felizes.) Analisando o capítulo terceiro do Gênesis observamos que o ser humano (está na sua gênese) vem reproduzindo as mesmas atitudes e sentimentos expressos pelos personagens do Jardim do Éden: A serpente, Adão e Eva. Deus houvera dado uma ordem ao casal: “Não comereis do fruto da árvore que está no meio do jardim, “para que não morrais”. A serpente que morava também no Jardim (devia ser uma entidade espiritual, pois cobra não fala) disse: - “Não morrerá, Deus é que não quer que você compartilhe do conhecimento do bem e do mal com Ele. Se comeres do fruto, vosso olhos se abrirão”. Neste diálogo, a serpente argumentou e seduziu Eva. Eis a primeira história de sedução, pelo menos na Bíblia, de que se tem notícia. Eva, embora conhecedora do Mandamento, não soube contra-argumentar e deixou-se levar pela lábia da serpente. Resultado: - Comeu o fruto e o levou a Adão. Eis aqui a origem de sentimentos como fofoca e boatos. Eva levou os argumentos e a lábia da serpente a Adão e o fez cair também. Adão sentiu-se fragilizado e não teve força para contra-argumentar. Nas relações pessoais e sociais não é também assim? As conversas más têm mais força que as conversas boas, pelo menos na aparência o mal sempre prevalece sobre o bem, embora provisoriamente.A traição também surgiu aí. Deus houvera dado a Eva, o jovem Adão como esposo. Eva traiu a Adão porque não procurou apoio emocional e afetivo nele. Procurou uma terceira pessoa que a seduziu. Assim, Eva traiu a Deus e a Adão. Após o evento da sedução outros sentimentos se manifestaram. Adão e Eva começaram a ter vergonha de seus corpos. Antes andavam nus e não tinham vergonha da nudez e nem de Deus. Qual foi a atitude deles? Penso que devem ter colocado as mãos sobre suas partes íntimas para escondê-las de Deus. Não é assim que fazemos quando alguém nos flagra nus? Deus perguntou a Adão quem lhe mostrou que ele estava nu e se havia comido do fruto proibido: - “A mulher que me deste por companheira me deu o fruto e comi”. Aqui identificamos a origem da transferência de culpa. Adão não assumiu seu erro. Culpou Eva e Eva, por sua vez, pôs a culpa na serpente. Não é assim que fazemos? Sempre procuramos pessoas e situações para culpar-lhes por nossas falhas? Marido culpa esposa, esposa culpa marido, pais culpam os filhos, filhos culpam os pais, patrões culpam empregados, empregados culpam patrões... Biblicamente, a raiz de todos os sentimentos nocivos teve origem no paraíso e na família de Adão. Tudo indica que a serpente, no relacionamento que teve com Eva, contaminou-a com todos os maus sentimentos que fazem parte da nossa natureza. O primeiro homicídio ocorreu nesta primeira família. Caim sentiu-se enciumado de seu irmão Abel, por ter feito uma melhor oferta a Deus. Teve inveja de Abel. Não é assim que se faz também? Quando se sente ódio ou inveja de alguém não se procura desonrá-la, feri-la com palavras e às vezes até matá-la como fez Caim com seu irmão Abel?Se os maus sentimentos apresentam uma origem espiritual, somente Deus poderá nos oferecer as ferramentas apropriadas para gerenciá-los.

Marcos Antonio Vasco Rodrigues

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sábado, 1 de agosto de 2009

CHEIRO DE SANGUE FRESCO, TEMPORAL E AGONIA

O Sol acabara de pintar o horizonte de vermelho. O céu vestia-se de um azul calmo e sereno. Havia um clima de solidão e silêncio sepulcral. As ruas eram limpas e desabitadas, as casas pequenas e bem cuidadas, assemelhavam-se as de um conjunto residencial recém-construido, contudo a cidade era cercada por grandes muralhas. Não se ouvia nenhum ruído, nenhum movimento nas ruas, havia ausência até mesmo de vento soprando. As plantas dormiam comodamente dentro dos jarrinhos pendurados nas paredes de algumas casas. Seria uma cidade fantasma? Não era, porque daquele lugar emanava uma paz celestial. Marcos contemplava do topo da montanha todo aquele ambiente e conseguia captar pelo coração da alma pessoas suspirando e corações pulsando.Jamais houvera posto os olhos e o sentimento num ambiente semelhante. Que mundo era aquele? Seria a nova Jerusalém? Vieram-lhe à mente várias interrogações. Por que construir tão singela cidade protegidas por gigantes muralhas num vale circundado por gigantes montanhas? Por que os habitantes dessa cidade se recolhiam tão cedo, logo na hora do pôr-do-sol? Por que não se recolhiam após a contemplação do ocaso? E ele, o que fazia ali? Quem o levara àquele lugar estranho? Como chegara? Enquanto seu coração o inquietava com uma infinidade de perguntas sem respostas, um cheiro de sangue fresco invadiu suas narinas. Sentiu medo...e náuseas. Olhou para todos os lados. Seus olhos não conseguiram localizar nenhum ser vivo, nenhum ruído suspeito, nenhum vestígio. Só ouvia e sentia o zumbido do vento passando a mão fortemente em seus cabelos. Será que o odor de sangue fresco estava vindo da misteriosa cidade? Não, não poderia ser, pensou... então decidiu: iria perscrutar cada palmo da cordilheira e só iria desistir quando conseguisse identificar a causa daquele odor, também misterioso e incompreensível. Enquanto decidia por onde iria começar sua caçada, um relâmpago cruza a montanha de norte a sul, acompanhado de trovões medonhos. Era o prenúncio de um forte temporal. Que estranho. - Pensou, não havia clima para temporal. Como se formou tão repentinamente? Sentiu-se menor que uma minúscula formiga. Proporcionalmente ao tamanho do Universo somos isto mesmo, avaliou . Sentiu na pele da alma, naquela tensa situação, a pequenez e a extrema fragilidade do ser humano. Mas Precisava proteger-se do temporal. Não havia abrigos na montanha. Não havia escolha. Desceria a montanha e pediria abrigo na estranha cidade. E assim o fez. A descida era íngreme e perigosa, mesmo assim apressou os passos, pois ao olhar para trás uma forte enxurrada corria atrás de si. Sabia, sem saber por que sabia: caso fosse tocado pelas águas da enxurrada, que corria na montanha, morreria. Quando chegou ao enorme portão da estranha cidade estava ofegante e exausto.- Por favor, abra – disse apavoradoUm homem fardado com roupa de tecido cáqui, olhou tranquilamente para Marcos e disse-lhe:- Você não pode entrar!Marcos olhou novamente para trás. A enxurrada estava a poucos centímetros dele e gritou:- Amigo, se essa água me tocar eu morrerei. Por isso não posso voltar.- Pois aqui você não tem autorização para entrar. Enfrente a enxurrada e volte de onde você veio.- Mas eu não posso, insistiu Marcos.- Sinto muito, disse o porteiro.Marcos deu um pulo da rede. Estava ofegante, com o peito quente e o coração batendo acelerado. Olhou para o relógio. Eram três da madrugada. Respirou fundo. Era só um sonho... ainda bem...


Marcos Antonio Vasco Rodrigues

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